Márcio Callegaro

Márcio no lançamento de "Contempoemidade" em Santos (Foto: L.Augusto)

Em 4 de junho, sábado, a livraria Realejo, de Santos, presenciou um burburinho de gente da literatura, do cinema, do jornalismo, do teatro. Foi o lançamento da antologia “Contempoemidade” na cidade. Entre os autores, um sujeito carismático, de fala mansa e marcante, chamado Márcio Callegaro. Na época do evento, o CineZen publicou uma crítica da obra, na qual Madeleine Alves escreveu: “Márcio e sua música narrativa, a embalar-nos na maresia e dispondo reviravoltas diante do conhecido”. E é isso mesmo. Os poemas de Callegaro em “Contempoemidade” nos instigam a saber mais da obra dele.

Márcio ao lado do jornalista, escritor e roteirista Marçal Aquino

Tendo em vista o lançamento de seu primeiro romance, “Bala com bala”, no segundo semestre de 2011, o site aproveitou para bater um papo com o autor, que também assina peças teatrais, letras de músicas e textos de histórias em quadrinhos. Em pauta, como se enveredou pelas artes, trajetória, autores preferidos, prêmios, as dificuldades para viver apenas da literatura, meio literário, Santos, entre outros temas.

Quem quiser saber mais sobre a obra do escritor também pode conferir o 1º CineZen Literário, em 20 de agosto, quando Márcio participará do bate-papo beneficente.

Confira a entrevista:

Como surgiu seu interesse pela literatura? Houve influência dos pais, amigos, obras ou autores?
Eu li muito quando criança e adolescente. Na fase adulta, por incrível que possa parecer, me interessei mais por livros técnicos. Considerava a literatura desinteressante. Quando me mudei para Santos, decidi realizar um sonho de adolescente, que era escrever para teatro. Então, nesses estudos, acabei adaptando “Carta ao pai”, do Kafka, e lendo quase toda a obra dele. Daí, pensei: se a gente pode escrever assim, então eu também quero fazer isso. Foi aí que descobri que me interesso mais pelo trabalho com a linguagem do que o conteúdo da história em si.

Projeto da capa: Ronaldo Sena / Quadro da capa: Maria Helena Bandeira

Lembra de quando teve seu primeiro texto publicado?
Como incentivo aos escritores mais novos, aviso que assinei três contratos de publicação cujos livros acabaram não saindo. O mais engraçado é que minha primeira publicação oficial foi com uma história em quadrinhos premiada, roteiro meu e desenho do Roger Cido, pela Scarium MegaZine, do Rio de Janeiro, em junho de 2003. Em dezembro desse mesmo ano, nessa mesma revista, saiu um conto meu premiado como fan fiction, intitulado “A Clonagem de Joseph K.”, que é uma homenagem ao Kafka.

Trace um resumo da sua trajetória desde que se envolveu com as artes. Li que recebeu vários prêmios, em música, teatro, roteiro de HQ, fan fiction, contos fantásticos e literatura infanto-juvenil. Por quais obras?
Eu comecei a tocar violão e fazer música com 14 anos de idade. Tive diversas premiações em festivais estudantis, e até música censurada (risos). Isso lá em São Paulo, na época da ditadura. Quando fazia Marketing, em 1995, pagava a faculdade com dificuldade. Então, a UNIP, Universidade Paulista, resolveu fazer um concurso de contos entre suas unidades, e dava desconto na mensalidade para os cinco primeiros colocados. Nesse momento, eu vi apenas a oportunidade de reduzir meus custos (risos). Foi meu primeiro conto escrito, e premiado (“Gisele com Ge”). Daí me animei a escrever o segundo, e fui vencedor do Mapa Cultural Paulista, por São Caetano do Sul (“Os avós paternos”). Fiquei entre os dez melhores contistas do Estado de São Paulo. E somente havia escrito dois contos!… Com minha terceira peça teatral, o monólogo do Kafka, fui premiado pelo MinC – Ministério da Cultura, e a peça foi interpretada em três capitais brasileiras, inclusive pelo Luiz Serra e pelo Paulo Betti. O prêmio de infanto-juvenil foi por uma editora (“Pepo e o ladrão de vitaminas”). E tenho o conto “Lúcia” também vencedor de concurso de contos, e que foi filmado como curta-metragem pela Yépada Comunicações.

Você participou da antologia “Contempoemidade”, que teve lançamento em Santos também. Como ocorreu seu envolvimento no projeto?
Rapaz, isso é outro caso impensado, até porque não me considero poeta (risos) – prefiro textos mais longos. Ocorre que deixei um romance com o Ari Mascarenhas para ele avaliar se era ou não um texto viável à publicação. Se me dava alguma dica para onde enviar, porque ele atua numa editora, a Algol, que publicava somente livros de música clássica. Um ano e meio depois, sem me dar resposta alguma, e sem eu cobrar nada dele, ele me convidou para participar dessa antologia poética, porque eu havia declamado uma poesia minha, “O Portão de Paraty”, em um sarau, e ele gostou bastante. Somente no dia do lançamento de “Contempoemidade”, lá em São Paulo, na Livraria Cultura, foi que ele me avisou que o segundo livro desse novo selo da editora, Mirfak, seria o meu romance.

Foto: Carina Rodriguez

Mudou para Santos em 1997. Quais foram as diferenças, no meio cultural, que encontrou na cidade em relação à capital?
Olha, vou lhe dizer a verdade, os primeiros contatos que tive aqui em Santos, achei muito estranho, um embate de egos. Eu tinha contato com a Cláudia Vasconcellos, com a Marici Salomão, com o Luiz Serra, com o Paulo Betti, com o pessoal do XPTO, tive encontros com o Marçal Aquino, com o Mílton Hatoum. Sou amigo pessoal de vários escritores, tudo gente simples, acessível, e o pessoal daqui, que não me conhecia, me tratava com enorme arrogância. Daí resolvi ficar com meus contatos de São Paulo e de outras cidades. Naquele momento, penso que foi a atitude mais acertada. A primeira pessoa que, em Santos, se mostrou acessível foi o Valdir Alvarenga. Depois, fui conhecendo outro pessoal. Passados mais de dez anos, creio que esse quadro melhorou bastante.

O que é ser estudioso da Teoria da Literatura? Pode nos explicar?
Teoria da Literatura é matéria acadêmica, de aspecto bastante amplo, por sinal. Em breves palavras, interpretação e crítica literária. Como escrevo, meu principal interesse é melhorar os meus textos, então estudo principalmente aquilo que se chamapoética genética textual, ou seja, como que se dá um texto em sua gênese, em sua origem, como ele se estrutura. Para escrever teatro, e romance, tive de entender como se constrói uma curva dramática, portanto, conhecer com profundidade os elementos da narrativa, e como eles se articulam. Por isso, transito com facilidade entre gêneros distintos. Aqui em Santos, eu fiz uma segunda faculdade, a de Letras e, depois, fiz pós em São Paulo, em Teoria Literária.

Qual sua rotina atualmente? Vive da literatura? Se não, almeja viver só da literatura? Isso é possível no Brasil?
Rapaz, tenho de trabalhar nove horas por dia para meu sustento, e isso não é pouco, na Defensoria Pública da União. Daí, parto para os estudos e para os compromissos pessoais. Então, infelizmente, a literatura fica mesmo nas horas que seriam voltadas para o lazer – não tem jeito. Há pouco tempo, em um jantar em São Paulo, eu comentei que literatura não dá dinheiro. E um amigo, o Lisandro, falou que eu devia incluir o “ainda” nessa frase (risos). E eu assim o fiz. Pelo menos, tenho a vantagem de estar sendo apoiado por uma editora comercial, ou seja, estou conseguindo publicar sem ter de bancar os custos, o que chega a ser um privilégio hoje em dia. São pouquíssimas pessoas que vivem de literatura no Brasil.

Fale um pouco do livro que planeja para esse ano.
Estou encabeçando um projeto de livros autorais, uma coleção pela Oficina de Escritores em parceria com as Costelas Felinas. Publico um livro meu de contos, “Espelhos de cristal”, somente com tempos míticos (fantasia) e tempos futuristas (distopias). Tem muita gente de qualidade nessa coleção. Depois, em final de outubro, início de novembro, sai meu romance pela Algol, “Bala com bala” que, comercialmente, podemos chamar de “romance policial”, porém é algo mais voltado para nossa realidade urbana, na linha de “Cidade de Deus” ou de “Tropa de Elite’. Pouca gente sabe, mas fui investigador da Civil, aqui de São Paulo, e relato nesse livro toda a minha experiência nesse período de vida. Portanto, é uma visão de dentro, não tem perfumaria. Mas, aviso, o livro trabalha com a linguagem, é polifônico. Foram três anos de escrita. São 33 capítulos curtos. O lançamento está sendo programado para a Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo, mas vamos fazer algo também aqui em Santos, e devo correr algumas cidades do Brasil divulgando o livro.

Tem mais projetos?
Olha, minha vontade é voltar com o teatro o mais rápido possível. Estou em busca de um espaço para ensaio, sem custos. Quem souber de algum, me avise. Não sou ator, então praticamente sou obrigado a dirigir se quiser ver meus textos encenados. Para o ano que vem, tenho mais quatro livros prontos: um sobre técnica de escrita, outro de contos, o infanto-juvenil que foi premiado e um de poesias, que terá tiragem limitada, apenas para não perder um material que acho ótimo, e se chamará “Acesso restrito”, nome de uma das poesias. Porém, o que mais gostaria é de ver minhas músicas gravadas, pois retomei minha atividade artística primeira, a música. Estou em parceria com um músico fantástico de São Paulo, o Ciro Carvalho, estamos com mais de 52 músicas prontas, enviando para cantores diversos.

Na sua obra, há mais inspiração ou transpiração?
Uma amiga, a Madeleine, acha graça quando digo que entro em “estado mediúnico literário” (risos) porque não tenho dificuldade com a escrita e nunca empaco num texto, não tenho o tal do “branco”. Textos curtos, elaboro na cabeça mesmo; textos mais longos, no papel. Se eu souber o final, às vezes somente uma frase, o restante vem com facilidade. Agora, depois de escrito, faço muitas correções. No fundo, é a parte que mais gosto de fazer. Hoje, já tenho a primeira escrita com maior qualidade, mas já houve conto no passado que eu contei e foram sessenta leituras, em dias distintos, com inúmeras correções em cada uma delas, até eu considerar pronto. No geral, afirmo, um texto só fica bom depois de descansar na gaveta e do autor voltar a ele inúmeras vezes. Quem consegue um bom texto sem esse trabalho, pode se considerar um privilegiado.

Costuma se inspirar em fatos reais ou também imagina situações para escrever?
Meus dois autores prediletos são o João Guimarães Rosa e o João Antônio. Sigo a escola deles. Esse último dizia querer “uma literatura que se rala nos fatos e não que rele neles”. Eu abro a janela e escrevo. Mesmo quando escrevo fantástico ou fantasia, muita gente comenta que acha estranho, porque existe sempre uma história mais recente falando do humano e sendo contada de forma sub-reptícia. Em “Bala com bala”, por exemplo, muita gente vai ficar de cabelo em pé (risos) porque tem amigos que são personagens e várias das passagens são reais, ou seja, vivi diretamente ou me foram contadas por quem viveu. Agora, é uma colcha de retalhos, ou seja, alinhavo isso tudo de forma a criar uma narrativa. Então, é ficção. Eu tenho um caderninho que qualquer ideia, acontecimento ou nome que me chame a atenção, eu anoto e guardo. Quando vou escrever, faço uso desse material. Essa é uma ótima dica para quem escreve.

Qual sua opinião do meio literário santista? Sente união entre os escritores?
Esses dias, acompanhei uma discussão no Facebook do Flávio Viegas Amoreira e gostei muito quando ele colocou que não devemos falar em “literatura santista”, que a literatura não se prende a essa questão de ter uma origem específica. Literatura é a arte do humano, é simbolização. Eu me recordo de ter assistido a um filme sobre uma escola rural lá dos cafundós da China e achei aquilo muito adequado a nossa realidade. Eu me dou bem com todo o mundo, me relaciono por aqui e por aí afora, até com escritores dos Estados Unidos e da Alemanha. Aproveitando a frase recente de uma amiga, a Maria Helena Bandeira, quem quiser ser meu desafeto vai ter de fazer isso sozinho.

Fique à vontade para deixar um recado aos leitores do site.
Tudo na vida passa de forma muito rápida, portanto, viva o dia de hoje como se fosse o último. De tudo o que vivi nesses anos todos, o amor é o que mais vale à pena.



3 Comentários

  1. Parabéns André pelo novo espaço. Acompanhamos o Cinezen, agora acompanharemos esse também.
    Abraços

    e tudo sucesso do mundo a você e ao Amigo Márcio.

  2. Olá Ari! Seu interesse pela cultura transcendo os limites da capital é louvável. Conte conosco. Abração, André Azenha

  3. Rubia Menezes wrote:

    O melhor é que o Marcio Callegaro tem seu carisma e sucesso proprios, parabens!
    Rubia Menezes
    Jornalista, Radialista e Professora PEB I

    OBS: André, parabens pela materia com o Marcio